Durante o primeiro ciclo da disciplina Métodos e Técnicas Inovadoras de Ensino e Aprendizagem, com a temática conectando saberes, tenho sentido a necessidade de fazer interagir o conhecimento teórico da disciplina com o meu conhecimento, pois trouxe-me o desafio de tornar este momento um espaço de aprendizagem que pudesse também servir de reflexão para as minhas práticas enquanto docente de francês língua estrangeira (FLE) e português língua estrangeira (PLE) com temas como:
1. O que é central para construir conhecimento/aprender?
2. Que projeto de vida lhe motiva a aprender?
No capítulo “Aprender com emoção, ensinar com alegria”, Gadotti (2011) apresenta uma reflexão sobre a crise de significado enfrentada pela escola contemporânea, marcada pelo desinteresse de alunos e pelo esvaziamento do papel social do professor. O autor parte do princípio de que ninguém aprende aquilo que não vê sentido, ressaltando que a indiferença de muitos estudantes não é resultado de falta de capacidade, mas de ausência de vínculo entre o conteúdo escolar e suas realidades e projetos de vida. Nesse contexto, Gadotti recupera o conceito de educação de Freire (1997) como um ato dialógico, no qual ensinar e aprender são movimentos simultâneos e afetivos, ou seja, o conhecimento é construído na relação entre sujeito, mundo e contexto social. O texto de Gadotti reforça que o sentido é o elemento central: aprendemos quando vemos significado no que estudamos, especialmente quando isso se conecta ao nosso projeto de vida.
Lembro da minha primeira experiência como professora do ensino básico a partir da aprovação no concurso para professora substituta da Escola de Aplicação da UFPA, em setembro de 2013. Pela primeira vez lidei com a autonomia docente no ensino básico de elaborar um plano de ensino de uma disciplina, de delimitar um programa, uma metodologia e formas de avaliar, tendo em vista o público-alvo atendido pela escola, isto é, crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens, ainda sem compreenderem o motivo, razão pela qual eles estudam uma língua tão distante da realidade deles. Foi necessário criar um sentido para contextualizar a aprendizagem, mostrar aos alunos os benefícios da aprendizagem desta nova língua e o conhecimento que esta pode lhes trazer.
Na minha perspectiva, aprender é um processo dinâmico e contextualizado, que vai além da acumulação de informações. Como destacado por Gadotti (2011), a aprendizagem só se consolida quando há um sentido intrínseco para o indivíduo, ou seja, quando o que está sendo aprendido se conecta a seus interesses, valores ou projetos de vida. Isso ecoa também a ideia de Papert (2008) sobre a importância da "matética" (a arte de aprender), que enfatiza a necessidade de o aprendiz ser ativo na construção do conhecimento, explorando conexões pessoais e emocionais com o conteúdo.
Além do sentido, outros aspectos essenciais são: relação com o coletivo “é o sujeito que aprende através da sua experiência. Não um coletivo que aprende. Mas é no coletivo que se aprende” (Gadotti, 2011, p.62). A aprendizagem significativa também envolve colaboração e diálogo, como mencionado por Fava (2020) ao discutir a "Paideia digital", que retoma os princípios gregos de aprender em comunidade, integrando pensamento, emoção e ação; relação emocional: aprender exige emoção e alegria. A frieza de conteúdos desconectados da realidade gera desinteresse; tempo e reflexão: Gadotti e autores como Demo (2001) criticam o "dando aulas". A aprendizagem exige tempo, reflexão e prática. Não basta receber informações passivamente; é preciso engajar-se criticamente, questionar e aplicar o conhecimento em situações reais.
Ainda na atualidade continuo trabalhando como professora de FLE e apesar da experiência adquirida ao longo dos anos, reconheço que essa reflexão sobre como construir conhecimento/aprender, deve ser continuada e aprofundada, pois passei a me questionar se durante a minha pratica docente eu já não teria me transformado em uma “dadora de aulas”, repetindo os mesmos planos de aula, com as mesmas “receitas prontas” e sem colocar em prática à teoria das inteligências múltiplas de Gardner (1989), que defende que cada indivíduo possui um perfil único de habilidades e formas de aprender, destacando a importância de metodologias que respeitem essas diferenças.
2. Que projeto de vida lhe motiva a aprender?
A educação de modo geral me motiva a aprender porque me permite crescer pessoalmente, desenvolvendo uma compreensão mais profunda do mundo e de mim mesma. Como Gadotti destaca, o verdadeiro aprendizado ocorre quando conectamos o conhecimento aos nossos propósitos e valores, transformando informações em significado.
Refletir sobre essa pergunta me remete a uma das indicações de leitura para a seleção do Mestrado, Bell Hooks, em sua obra "Ensinando a Transgredir: A Educação como Prática de Liberdade" (1994), a autora critica o sistema educacional tradicional, que muitas vezes reforça hierarquias de poder, silencia vozes marginalizadas e trata alunos como receptáculos passivos de conhecimento. Em contrapartida, ela propõe uma pedagogia engajada, onde professores e alunos aprendem juntos em um espaço dialógico, afetivo e descolonizado.
Um dos pilares de seu pensamento é a importância do afeto na educação. Hooks argumenta que o aprendizado só se torna significativo quando há reconhecimento da humanidade de todos os envolvidos, professores que ensinam com amor e alunos que se sentem vistos e valorizados. Essa abordagem rompe com a frieza acadêmica tradicional e cria vínculos capazes de inspirar mudanças reais. Para ela, educar é um ato de cura em um mundo marcado por violências estruturais, especialmente para corpos negros, femininos e periféricos.
É trabalhar com uma educação que pode ser libertadora. O que me remete também ao curta-metragem “Vida Maria” (2006). O curta ressoa profundamente em minha trajetória de uma forma bem particular, pois ele retrata de forma impactante a vida de uma garota chamada Maria, cuja realidade é marcada por muita dificuldade no sertão. O filme aborda vários temas, como a exploração infantil, trabalho duro, e a falta de conscientização sobre a educação. Onde, infelizmente, Maria foi forçada a seguir os passos de sua mãe de trabalho duro e privações.
A história da minha família por parte de mãe é um testemunho de coragem e resiliência diante das adversidades. Remonta a um tempo em que a seca assolava o sertão nordestino no Piauí, lançando desafios à sobrevivência e qualidade de vida. Minha mãe, juntamente com seus pais e nove irmãos, foi uma das muitas famílias que enfrentaram essa dura realidade em busca de uma vida melhor. Vieram tentar a “sorte” em Belém do Pará. Assim como a personagem do filme se chama Maria, a minha mãe se chamava Maria do Amparo, minha avó Maria Rosa, a sua irmã Maria Joana, minhas tias, são todas Marias: Maria do céu, Maria de Nazaré, Maria do Socorro, Maria do Carmo, Maria Francisca...
Posso dizer que o ponto de mudança na minha história de vida em relação às “Marias” da minha família e as do filme é o estudo. A narrativa sobre a importância da educação na quebra de pobreza e da exploração, ressalta a urgência de mudanças sociais para proporcionar um futuro mais justo às crianças. A educação escolar pode devolver a chance de elas sonharem, crescerem e contribuírem de forma significativa para a sociedade, ao invés de serem colocadas em circunstâncias difíceis ainda na infância.
Aprendo que o conhecimento só se completa quando compartilhado, e é por isso que vejo meu aprendizado como um projeto, uma ferramenta para impactar positivamente a vida dos outros. Como dizia Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou a sua construção” (1996, p.22).
Em conclusão, ao refletir sobre as questões norteadoras deste fórum, percebo que esta disciplina tem me desafiado a repensar minha prática docente sob uma perspectiva mais crítica e significativa. As discussões sobre aprendizagem contextualizada, aprender com sentido, aprender com o outro, aprender com diferentes recursos, educar com emoção e alegria reforçam que educar vai além de transmitir conteúdos: é sobre criar conexões que transformem tanto o aluno quanto o professor. Minha história familiar e obras como as de Bell Hooks me lembram que a educação é um ato político e afetivo, capaz de romper ciclos de exclusão. Assim, meu compromisso é seguir aprendendo de forma engajada, buscando metodologias que respeitem as múltiplas inteligências e que, de fato, libertem. Afinal, como diz Gadotti, só aprendemos quando o conhecimento faz sentido.
Referências bibliográficas
FAVA, Rui. O retorno da Paideia grega em forma de Paideia digital. In: DEBALD, Blasius. Metodologias ativas no ensino superior: o protagonismo do aluno. Porto Alegre: Penso, 2020, p. 95-103 (Epub– Capítulo 11).
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GADOTTI, Moacir. Aprender com emoção, ensinar com alegria. In: GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. – 2. ed. – São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freite, 2011, p.59-72.
GARDNER, Howard; HATCH, Thomas. Multiple intelligences go to school: educational implications of the theory of Multiple Intelligences. Educational Researcher, v.18, n.8. p.4-10, 1989.
HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade; tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017. p. 9-50 (Introdução, Capítulos 1 e 2).
PAPERT, Seymour. Uma palavra para a arte de aprender. In: PAPERT, Seymour. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 87-106.
Para refletir:
https://www.youtube.com/watch?v=yFpoG_htum4&t=96s