Durante a minha graduação no curso de Licenciatura Plena em Pedagogia UFPA, mais ou menos em 1998, uma situação ficou marcada em uma aula de Didática (não lembro ao certo qual, pois fizemos didática I a IV), em que a professora propôs uma atividade bastante diferente do que estávamos acostumados. A atividade consistia em visitar o aterro sanitário (Lixão), conhecido como lixão do Aurá, que atualmente não está mais ativo, e tínhamos que verificar como era a educação das crianças que moravam próximo a esse local. A professora nos dividiu em grupos (meu grupo era o Fábio, Edilene, Zulmira, Flávia e eu), e lançou uma questão-problema, que era mais ou menos esse contexto: "Como garantir o direito à aprendizagem de crianças em contextos de vulnerabilidade social?". Passamos dias pesquisando, debatendo, e elaborando um roteiro antes de visitarmos, pedimos autorização a SEMAS que fica até hoje na Almirante Barosso, que cedeu uma Kombi para nos levar até o lixão.
Quando chegamos ao lixão, no dia marcado, nossa, foi muito impactante, as crianças, os adultos, estavam em meio ao lixo, junto com os urubus, o mau cheiro era horrível, juro, deu vontade de desistir, mas eu e a equipe, tentamos nos recompor e falar com alguns responsáveis a respeito da educação das crianças, uma vez que fomos pela manhã, por volta de umas oito horas e tinham muitas crianças naquele local. As famílias com quem conseguimos falar disseram que as crianças iam à tarde para escola, nos indicaram onde ficava a escola e fomos até lá, para tentar falar com alguém. Pasmem, as “casas”, que essas famílias moravam eram taperas, construídas bem próximo do lixão, feita com resto de material reciclado (papelão, xinco, etc), sem saneamento básico, sem água tratada, banheiro a céu aberto.
Ao chegar na escola, que ficava um pouco distante do local, nos deparamos com professoras cansadas, a princípio com pouca empatia, fortemente influenciado pelo paradigma tradicional Santos (2005), baseado na transmissão de conteúdos, o recurso que usavam era quadro negro, giz e texto escrito no quadro, além de ser centrado na figura da professora, que insistia para que as crianças copiassem e depois ela explicava de forma expositiva o que tinha escrito.
Na verdade a turma que atendia as crianças do lixão era mista, com crianças que estavam em séries diversas e com idades diferentes, a memorização era o principal indicador de aprendizagem. As crianças aparentavam estar com fome e com as vestes bem carente. Sondamos como eram as provas, e naquela época era somativa, feita em papel com pauta, que as crianças tinham que copiar e depois responder, em geral eram de marcar, completar e responder, aquele modelo clássico tradicional e na outra sala a professora fazia a prova no mimeográfo, com as crianças que não eram do lixão, mas do bairro próximo a escola.
Ficamos muito chocados, com o que vivenciamos, resolvemos fazer uma ação com nossos pares, e na época arrecadamos roupas, material escolar, além de propor algumas atividades mais lúdicas, também erámos estudantes pobres, mas queríamos contribuir de alguma forma. Contudo, retornamos a escola e fizemos um dia diferente, com brincadeiras (pé de lata, bambolê, pião, pula corda, amarelinha, boca de forno), sabíamos que não iria resolver o problema, mas queríamos de alguma forma proporcionar um dia diferente para aquelas crianças tão sofridas.
Essa experiência, me possibilitou vivenciar na prática elementos do paradigma sócio cultural, foi a primeira vez que tive contato com a Pedagogia do oprimido de Paulo Freire, que valoriza a problematização da realidade, o diálogo como método e a construção coletiva do conhecimento. "O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o pronunciam, isto é, o transformam."( Freire, 1970. p. 45). O que ficou de fato? Hoje, fazendo um paralelo com base nas leituras do Conceito Nucleador 2, percebo como aquela experiência estava pautada em um paradigma crítico-emancipatório, "Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo." ( Freire, 1970. p. 70.), de fato, a busca pelo romper com a visão de aluno como recipiente vazio que propunha a educação bancária e transpor com paradigma tradicionalista, propondo a ideia de uma pessoa ativa, reflexiva, do conhecimento. Repensar sobretudo ideias, que estavam adormecidas, como o fato de que os paradigmas educacionais não são neutros, carregam uma visão de mundo, de ser humano e de sociedade. E de fato, gostaria de saber o que aconteceu com aquelas crianças, fizemos tão pouco, mas pensando de forma utópica, que a educação de alguma forma tenha feito a diferença na vida delas.